Gente, o post a seguir foi escrito pelo meu queridíssimo amigo Gabriel Roca, que fez um vídeo maravilhoso durante sua viagem para Portugal e que merecia ser mostrado aqui. São menos de 7 minutos cheios de emoção, de arrepiar! Assistam e compartilhem…
Ah! Leiam também a descrição do vídeo lá no Vimeo. Beijos, Valentina!
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“Não sou desses que ficam com a câmera na mão durante a viagem. Você não vê nada do que tá na sua frente pra ficar vendo tudo através da tela, não é?”
Não vou mentir que eu ouvi isso algumas vezes, e que, por mais que eu tenha rebatido a ideia na hora, dizendo, “calaboca, você não sabe nada”, a pergunta me fez revirar algumas vezes, antes de dormir.
A ideia toda de fazer o filme começou um tempo antes da viagem, com dois fatos. 1: meu pai, que sempre foi apaixonado por fotografia, mas que nunca teve tempo pra aprimorar esse lado artístico, comprou uma câmera boa, muito além do que ele precisava para fins estéticos não profissionais. 2: Um grande amigo me mostrou um clipe sensacional no Vimeo, no qual vocês vão poder identificar claras referências, no meu vídeo. É só digitar lá “In South America 2012″ e clicar no frame que tem uma mão saindo da areia (acredito que seja no Uruguai). Divirtam-se, mas vejam meu vídeo primeiro, porque depois desse, tudo é uma bosta. (Inclusive sua vida de profissional remunerado de escritório. E a minha também, óbvio).
E aí você pega uma câmera que nunca pegou, trabalha no modo manual, ainda que aprendendo na marra, e vai viajar. É óbvio que não é fácil. Você vai lá, se dedica, grava o dia inteiro. E tá tudo lindo na porra do visor de LCD da câmera. Descarrega tudo no computador, no final do dia, orgulhoso, e vai conferir o resultado: Estourou o branco, tá subexposto, o foco automático não funcionou direito, pus o foco no manual e errei também, filmei na vertical.
Vou desistir dessa merda. Ou não?Calma, vou ver o vídeo de novo (o que eu citei lá em cima), pra buscar umas referências. Quem sabe filmando amanhã eu não pegue algo melhor.
Tudo de novo, e as coisas dando um pouco errado, sempre. “Mas você não é profissional, segura sua onda”, me disse meu sábio irmão
Já que eu não tenho toda – nem sequer pouca – técnica, vou filmar o que eu achar bonito. Não interessa, pode ser alguém fumando, pode ser um monte de balões, pode ser um gato de rua fudido. Tudo que tiver um pouco de estética eu vou filmar nessa porra.E assim os dias de viagem foram passando. A técnica foi melhorando: comecei a tremer menos, inventar menos, e fazer o feijão com arroz que podia dar certo. “Quem manda em tudo é a edição”, disse o mesmo sábio amigo meu que me mostrou o vídeo inspirador. E no fim acaba sendo verdade.
Mas eu já tinha tirado algumas fotos, já sabia um pouco das técnicas do modo Manual da câmera. De edição eu não sabia nem abrir o programa. A trilha sonora do vídeo eu já imaginava: ou seria essa, do Ludovico Einaudi (ele é o mesmo pianista que fez a trilha do filme “Intocáveis”, e de lá fui baixar a discografia dele), ou seria “Auto Rock”, do Mogwai. Acabei optando pela primeira, por alternar momentos de alegria e tristeza. Mas mesmo assim, não sabia nada de edição.Então baixei um tutorial na internet e fui assistindo. Assistindo. Não tinha colocado nenhuma cena no projeto que seria o final, e isso tava me desmotivando pra cacete. Eu comecei a ver o tutorial assim que cheguei de viagem, e um mês depois praticamente já tinha desencanado de fazer o vídeo.
“As fotos tão boas”.
Mas aí, o destino mexe seus pauzinhos (é verdade que mexeu algumas árvores, dessa vez). Caiu uma puta duma chuva em São Paulo, que inundou ruas e avenidas, levou árvores e postes elétricos embora. Exatamente em uma semana que eu teria que passar inteira por lá. Resultado: cinco dias sem internet e sem TV. Aí era eu e minhas duas horas de gravação, minhas duas horas de gravação e eu. O vídeo ficou pronto, em umas 16 horas de edição.
Ver o resultado final é legal pra cacete. Ele foi postado no grupo de intercambistas de Lisboa, tem gente de várias partes do mundo compartilhando. Ele está há três dias no ar, e, nesse momento que eu escrevo, tem quase 700 views. Não é muito pra quem tem boas formas e recursos pra divulgação, mas porra, eu não sou profissional. Tô feliz pra caralho.
E na real, meus pais sonharam e viveram essa viagem com muita felicidade. Ganhar um abraço, dos mais emocionados que já recebi, dos dois, após ter visto o vídeo, valeu quantas as centenas de visualizações que eu tiver.
E, por fim, assistindo mais uma vez, agora, pensando sobre a pergunta que me fizeram lá em cima.
Eu lembro de cada frame desse vídeo. Cada um deles. Me lembro no que eu tava pensando quando ia filmar. Eu busquei, em cada instante, ver coisas bonitas, pra mostrar coisas bonitas. Eu rio quando lembro que ficava filmando as gaivotas e me meu pai me perguntava se eu trabalhava pro Greenpeace e tava catalogando cada uma delas. Mas eu sabia que eu tava buscando algo legal pra mostrar, e que, para isso, eu precisava ver coisas legais. Acho que a câmera me fez buscar a beleza de cada segundo. Ainda que enquadrado, ainda que limitado, eu precisava ver tudo, pra saber o que eu queria mostrar. No fim das contas, acho que ela não atrapalhou nada.
Muito pelo contrário.